19 outubro 2008

A Dama de Vermelho

Ela chegou sozinha. Parou no balcão onde eu estava, deu um boa noite discreto como o seu sorriso, vistoriou o ambiente e, antes de sentar-se numa mesa bem em frente, pediu um cinzeiro - que imediatamente passei às suas mãos.

Era jovem, na faixa dos 25, mas vestia-se como uma mulher de mais idade. O vestido vermelho, quase bordô, colado ao corpo esguio, revelava suas formas e exalava uma sensualidade que destoava do comprimento - abaixo dos joelhos - e do decote - quase na altura do pescoço.

Uma mulher elegante, sem dúvida. Salto alto, pernas lindamente cruzadas. Cabelos presos, maquiagem leve e um rosto juvenil, ainda que o "conjunto da obra" sugerisse um perfil mais maduro.

Pediu o cardápio e decidiu rapidamente: Black Label (15 anos, o mais caro) sem gelo e água com gás.

Fiquei surpreso. Ali estava alguém que sabia escolher uma bebida. Noite após noite, vejo clientes pedindo as mesmas coisas de sempre: chope, refrigerante, caipirinha, suco. Foi-se o tempo em que pedir whisky era natural. Após a Lei Seca, então, as garrafas do malte só faltam empoeirar na prateleira.

O pedido da moça, no entanto, remetia aos melhores bebedores de épocas passadas. O escocês sem gelo - para não alterar seu sabor; a água com gás - para apurar o paladar. Ela sabia das coisas.

Pra me encantar ainda mais, em vez de um cigarro comum, acendeu uma cigarrilha. Um charme. Movimentos de mão suaves, começou a tragar com uma elegância que não se vê mais. Gilda, total.

Como nada é perfeito, de repente sacou o celular - praga dos tempos modernos - e, freneticamente, começou a procurar mensagens ou, quem sabe, algum número a discar. Falou com alguém, levantou-se e, sem desligar, perguntou-me o número do bar. 1229? OK.

Pensei: tá esperando o namorado. Normal.

Alguns minutos depois, chegou sua companhia. Era só um casal de amigos, que vieram também pra assistir ao show.

E com eles ficou até o fim. Até a hora em que pagaram suas contas e ela se foi, sozinha. Pagou em cheque, como se fizesse questão de que seu nome assinasse aquele momento: Renata.

Foi-se, mas deixou no Villaggio uma atmosfera que há muito tempo eu não sentia. Se a boemia legítima não existe mais, o que aconteceu ali foi um momento nostálgico, que valeu a noite.

Dama de Vermelho, obrigado.

3 comentários:

Anônimo disse...

Gostei do clima noir do texto...

Mas, de fato, o celular é que acabou por desfazer a ilusão!

Zé Luiz Soares disse...

Quebrou um pouco o clima, sim; mas que a dona tinha classe, meu amigo,só vc estando ali pra ver...

abração.

Anônimo disse...

É a Renata que vc namorou???